{"time": 1770389434467, "blocks": [{"data": {"text": "O planalto da região serrana do Rio de Janeiro concentra uma herança europeia visível na arquitetura, na agricultura e, sobretudo, na gastronomia, onde tradições artesanais moldam a identidade dos territórios à mesa. Fundada em 1818 por D. João VI, Nova Friburgo é a primeira colônia de imigrantes não portugueses do Brasil. Foram os suíços e, depois, os alemães, que trouxeram a cultura da charcutaria e dos processos artesanais ligados à criação e ao preparo de carnes suínas. Essa memória permanece nos pratos à base de porco, nos embutidos e nas preparações longas, ainda presentes nos restaurantes serranos."}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "Em meados do século XIX, Nova Friburgo tornou-se importante exportadora de banha para a capital. Antes da geladeira, a banha era usada para conservar alimentos, de feijões e legumes a carnes. Em 1887, o Jornal do Commercio destaca os produtos da Fazenda Gavião, do Barão de Nova Friburgo, como “toucinho de primeira qualidade” e “banha pura de porco”. Desde então, a suinocultura friburguense manteve-se ativa; no início da década de 2020, o município contava com mais de quinze produtores de charcutaria artesanal."}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "Um dos reflexos desse movimento pode ser observado entre o centro de Nova Friburgo e a rodovia RJ-116. Em Mury, localiza-se a charcutaria artesanal Porco Alado, a única no Brasil com cave subterrânea, cujos presuntos, copas e embutidos aparecem nos cardápios de restaurantes cariocas. Por outras estradas da serra, surgem cachoeiras, áreas de mata e as formações do Parque Estadual dos Três Picos."}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "Atravessando Teresópolis, o percurso chega a Petrópolis, na Serra dos Órgãos, escolhida por Dom Pedro II como refúgio de verão. A presença da família imperial e da elite carioca deixou como legado palácios e palacetes que ainda compõem a paisagem urbana. Essa ocupação marcou também a gastronomia local: pratos como aves com molho de frutas, pernas de vitela e de cordeiro, além do filé à Wellington, expressão de uma cozinha aristocrática inglesa, eram servidos nos restaurantes serranos. Ao lado desses pratos quentes, preparações frias como patês, mousses e rillettes passaram a ocupar lugar recorrente nos couverts, prática registrada desde o século XIX. Em 1844, o Jornal do Commercio noticiava a construção do palácio que daria origem à povoação; poucas décadas depois, por volta de 1900, a cidade já contava com restaurantes e recebia veranistas."}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "A gastronomia serrana guarda também a memória dos quintais: aves, patês, doces de frutas e preparações caseiras que, ao longo do tempo, migraram do ambiente doméstico para a mesa de hotéis, pensões e restaurantes. Em Petrópolis, por volta de 1850, colonos alemães produziam laticínios, pães, bolos e biscoitos, criavam porcos para embutidos e defumados e abasteciam estabelecimentos locais, consolidando a presença da charcutaria e dos patês na mesa serrana, preparações que revelavam o aproveitamento integral do animal, prática sustentável recorrente à época."}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "Com o passar dos anos, já no início do século XX, esses traços mantêm-se e se ampliam por toda a região serrana. A mesa dos restaurantes passa a incorporar, de forma recorrente, animais criados nos quintais, muitas vezes acompanhadas por molhos de frutas, além de legumes, embutidos, queijos, bacalhau e massas, compondo um repertório presente em diferentes cidades e restaurantes."}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "Em Teresópolis, a mesa dos restaurantes refletia a presença dos laticínios e das cozinhas europeias. Os queijos produzidos na Queijaria-Escola, como o minas frescal, o raclette e o moleson, abasteciam os restaurantes da cidade. As massas ocupavam lugar central, com espaguetes, canelones, raviolis, lasanhas e capeletes servidos em casas como La Bella Massa e Piccola Torino, ao lado de preparações como lasanha verde de galinha, lasanha de camarão e capelete à Napoli. Na região do Parque Regadas, apareciam pratos espanhóis, como o bacalhau à espanhola, além de fondues, racletes e sorvetes de frutas. Restaurantes como o Gota d’Água serviam trutas com amêndoas, feijoada e frango com quiabo, enquanto casas de tradição portuguesa ofereciam bacalhau com batatas e molho de brócolis, filés de pescada acebolados e doces como ovos moles."}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "Nos arredores de Petrópolis, especialmente em Corrêas e Itaipava, o repertório incluía cozinhas de inspiração francesa, alemã e italiana. Em Corrêas, surgiam pratos como filé em iscas flambado no conhaque com champignons, trutas com uvas verdes, frango grelhado com molho de geleia de laranja e maracujá e roast-beef flambado, além de preparações da cozinha alemã como kassler, chucrute, salsichas e lentilhas. Em Itaipava, restaurantes especializados em massas serviam caponata, carpaccio e strudel de ricota e espinafre, ao lado de pratos como pato com molho de amoras, coelho na manteiga e crepes com queijo de cabra."}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "Nesse mesmo território, em Itaipava, o restaurante Faraona estruturou sua proposta a partir do cultivo de verduras e legumes, da criação de cabritos e leitões e do uso de galinhas-d’angola — ou faraonas, como são chamadas em italiano —, ave tradicionalmente criada na serra. O cardápio, enxuto, incluía entradas como carpaccio especial, porchetta romana e salada com galinha-d’angola, ervas, tomate e aipo. As massas compreendiam ravioli de alcachofra, lasanha clássica, tagliolini com tomate e ricota defumada e tagliatelle ao funghi. Entre os pratos principais figuravam filé com ervas finas e batatas, peito de galinha-d’angola assado com polenta e couve-de-bruxelas, cabritinho com ragu e feijão branco, e leitão assado com batatas coradas."}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "Mais adiante, no Vale das Videiras, a relação entre paisagem, tempo e mesa se estabelece a partir de bares e restaurantes ligados às antigas fazendas do vale. Desde meados do século XX, a região passou a receber visitantes em almoços de fim de semana. Ao longo das décadas seguintes, restaurantes e pousadas estruturaram cardápios nos quais apareciam patês, aves, coelhos, carnes de preparo prolongado e massas."}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "No início dos anos 2000, esse conjunto ganhou projeção com restaurantes como a Locanda della Mimosa, onde pratos como peixe fresco com molho de três tomates, lasanha de funghi porcini e lombo de cordeiro com molho de amêndoas integraram o repertório local; o Faraona, em Itaipava, com o pappardelle de pato e galinha-d’angola ao vinho; o Solar Fazenda do Cedro, com ossobuco de vitelo com frutas flambadas; e a Pousada Fazenda das Videiras, onde coelho marinado no vinho tinto era servido em jantares e menus-degustação. No Pirilampo, restaurante instalado no Vale das Videiras, surgiram preparações como vol-au-vent de pato com tâmara, confits, ragu de cordeiro e pratos sazonais associados aos menus de inverno."}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "Em Nogueira, distrito de Petrópolis, esse repertório reaparece em chave contemporânea. À frente do Angá Ateliê Culinário, Lydia Gonzalez retoma tradições locais como o patê, preparação associada ao aproveitamento integral dos animais de quintal, além de pratos que dialogam com a cachaça e o fubá."}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "“Esse senso de pertencimento e essa relação com o meu entorno fazem parte da nossa cozinha. Muito do que expressamos vem dessa conexão com o lugar onde estamos”, afirma Lydia Gonzalez. Assim, a Serra Fluminense se apresenta por meio de sua geografia, dos fluxos migratórios, das práticas agrícolas e da mesa posta, onde restaurantes articulam história, técnica e tempo."}, "type": "paragraph"}], "version": "2.18.0"}
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