Rio de Janeiro: a história gastronômica de Laranjeiras

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Territórios

Publicado em

6 de Junho de 2024 às 14:26

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{"time":1773342820384,"blocks":[{"type":"paragraph","data":{"text":"Por ser um canto tranquilo e afastado das doenças da cidade, era como uma Petrópolis mais próxima, um lugar de veraneio. Como o Rio era o centro do poder político e cultural do país, de 1800 a 1940, passa a atrair a aristocracia, os fidalgos, as embaixadas e os estrangeiros de corpos diplomáticos, além de magistrados, ministros, altos funcionários públicos e ricos comerciantes. Com eles, uma estrutura de comércio de alto nível ligada pelo serviço de “bonds”. "}},{"type":"paragraph","data":{"text":"O “comer fora de casa”, que é o objetivo principal dessa pesquisa, acontecia, mas não era um hábito, do fim do Império até 1930. A vida social se dava em bailes, festivais, recepções, banquetes oficiais e saraus."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Laranjeiras começou como um caminho que seguia o curso do Rio Carioca. Era lugar de chácaras rústicas, com hortaliças, mandiocais, criação de porcos e aves, cafezais, bananeiras e outros pomares, para o abastecimento da cidade. Foram as árvores, no entanto, plantadas pelos primeiros sesmeiros portugueses, que batizaram o lugar: “Larangeiras”, na grafia que persistiu até os anos 40. "}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Naquele vale, a vida era feita do sobe e desce dos carros de boi margeando o rio."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"De Laranjeiras desciam a água, as verduras, frutas e legumes frescos. Do centro da cidade, voltavam os secos e a matéria prima processada. Vinham manteiga, peixe seco, carne seca, cachaça ou “produtos do reino”, como farinha de trigo em barris, azeite, vinhos, queijo, pernil de porco, chás, presunto, peixes salgados e toda sorte de mantimentos que não apodrecesse em países quentes. "}},{"type":"paragraph","data":{"text":"A história da Rua das Laranjeiras é indissociável do Rio Carioca - a principal fonte de abastecimento de água doce da cidade até o fim do Império - até porque seu desenho atual foi esculpido pelas trilhas que margeavam suas águas, hoje canalizadas e invisíveis à população."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Às vésperas da chegada da família real, o censo de 1793 nos conta que São Sebastião do Rio de Janeiro tinha 17 casas de pasto (as precursoras dos restaurantes), 40 “casas de café” e 344 tabernas, mas todas confinadas ao centro da cidade para dar de comer e beber aos viajantes, profissionais liberais e a massa trabalhadora que ali circulava. Laranjeiras, no entanto, seguiu bem rural até a metade do século XVIII. A vida acontecia dentro das casas, e acompanhava a luz do dia, com o almoço servido às 8 da manhã e o jantar, ao meio-dia. "}},{"type":"paragraph","data":{"text":"A reboque, surgem hotéis e pensões destinados a “senhoras e cavalheiros de alto tratamento”, e sempre “com cozinha de primeira ordem”, como afirmavam os anúncios de então. Os cardápios eram escritos sempre em francês, símbolo do refinamento gastronômico de então. "}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Até 1893, a fábrica foi responsável pela chegada de pelo menos 800 pessoas a Laranjeiras, incluindo funcionários e suas famílias, locados em 144 casas. Tudo isso, naturalmente, criou uma demanda para botequins, cafés e restaurantes, que antes não existiam."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"A mesa da Rua das Laranjeiras teve mudanças marcantes ao longo do tempo:"}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Em 1880, é inaugurada a Fábrica de Tecidos Aliança e, com ela, uma nova fase do bairro, que precisava manter sua força de trabalho. Parte dos novos imóveis é construída pela própria empresa e surgem escolas de ensino básico, pontos de convivência, teatros e, também, um cinema, já no século XX."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"É importante entender que as definições de café, confeitaria ou botequim eram ainda mais fluidas. Os hotéis também serviam doces ou produtos de padaria e as confeitarias por vezes serviam refeições quentes. Num dos guia de época, uma casa vem relacionada como um café, mas em outro é classificada como botequim, por exemplo. "}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Também na década de 30 e, por todo Rio de Janeiro, prosperam pensões e restaurantes abertos por imigrantes japoneses, inclusive a Pensão Laranjeiras, no número 49. "}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Em 1930, cresce a oferta e o comércio local passa a contar, também, com quatro novos cafés, uma loja de balas e bombons, a Gaio Marti (que se tornaria uma rede de supermercados), uma leiteria e, muito importante, a Padaria Aliança (sobre a qual falamos na seção dedicada a Machado de Assis. "}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Em 1914, já havia dois botequins, três açougues, três padarias, uma confeitaria, quatro quitandas e oito “secos e molhados” – espalhados pela Rua das Laranjeiras. Dez anos depois, surge a Casa do Minho, no encontro entre Laranjeiras e Cosme Velho."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Em 1906, achamos na Rua das Laranjeiras a primeira referência a uma casa de pasto. Como era de costume, não tinham nome, nem nada. Sabia-se pela boca do povo ou vinham anunciadas em almanaques, jornais ou cartazes, com o simples endereço ou nome do proprietário. Ali, um certo F. Dutra dos Santos. "}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Com o tempo, cada um achou  sua “vocação”, mas uma coisa é fato: a palavra asseio (a grande preocupação da época) aparecia em quase todos os anúncios de jornal, até 1870."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Chácaras e palacetes dão lugar a pequenos prédios de dois andares, agora com a solidez do concreto armado."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Em 1936, uma antiga vila dá lugar a uma empresa de apartamentos que depois tomaria o nome de Hotel Souza Dantas - importante lembrar que, à época, era possível morar num hotel, assim como hoje alugamos um imóvel, com direito a levar nossos pertences, inclusive livros, guarda-roupas e pratarias. O hotel teve, talvez, o primeiro restaurante aberto à clientela, e acabou por se tornar o mais famoso na Rua das Laranjeiras do seu tempo. Por acaso, ficava na Rua das Laranjeiras, 371, onde hoje fica o Restaurante Trégua."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Dali em diante, o bairro passaria por inúmeras mudanças importantes: enfrentou a concorrência dos novos pontos da sociedade, como Copacabana, Glória e Urca, a partir dos anos 20; viu o corpo diplomático migrar para Brasília, a partir dos anos 60; e com a chegada dos túneis Santa Bárbara e Rebouças, deixa de ser um vale tranquilo e se transforma em importante ponto de passagem. Tudo isso influenciou na sua oferta gastronômica, que procurou se manter fiel à vizinhança."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Há muita tradição nas casas de Laranjeiras. O Mercado São José das Almas, de 1944, mais conhecido como Mercadinho São José, fechou as portas em 2018, mas será reinaugurado em 2024, graças a um projeto de revitalização pela Prefeitura. E ainda, vários restaurantes conseguiram a romper a virada do século, como a antiquíssima Casa do Minho (1924), com sua cozinha tradicional portuguesa; a Rotisseria Sírio Libaneza (1972); o restaurante Mamma Rosa, com cozinha da Sicília e de Nápoles (1984); o Luigi’s e suas massas artesanais (1991) e a Churrascaria Gaúcha, de 1939, que depois de 84 anos, infelizmente fechou as portas em setembro passado. "}},{"type":"paragraph","data":{"text":"REZENDE, Renato. Memórias e curiosidades do bairro de Laranjeiras. Rio de Janeiro: João Fortes Engenharia, 1999 "}},{"type":"paragraph","data":{"text":"GERSON, Brasil. História das ruas do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Prefeitura do Distrito Federal, Folha Carioca Editora, 1965  "}},{"type":"paragraph","data":{"text":"DÓRIA, Pedro. 1565 - Enquanto o Brasil nascia. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2012 "}},{"type":"paragraph","data":{"text":"CRULS, Gastão. Aparência do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1965 "}},{"type":"paragraph","data":{"text":"COARACY, Vivaldo. Memórias da Cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1965 "}},{"type":"paragraph","data":{"text":"CAVALCANTI, Nireu. História dos conflitos no Rio de Janeiro Colonial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013 "}},{"type":"paragraph","data":{"text":"CAVALCANTI, Nireu. O Rio de Janeiro Setecentista - A vida e a construção da cidade da invasão francesa até a chegada da corte. Rio de Janeiro: Zahar, 2003 "}},{"type":"paragraph","data":{"text":"BERGER, Paulo. Dicionário histórico das ruas do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Gráfica Olímpica Editora, 1974 "}},{"type":"paragraph","data":{"text":"ALGRANTI, Leila Meizan. Tabernas e botequins, cotidiano e sociabilidades do Rio de Janeiro (1808 a 1821). Campinas: Unicamp, 2011 "}},{"type":"paragraph","data":{"text":"BIBLIOGRAFIA:"}}],"version":"2.18.0"}

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