Rio de Janeiro: tudo sobre as ostras nativas do Rio de Janeiro

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Territórios

Publicado em

2 de Julho de 2024 às 15:58

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{"time": 1719951876202, "blocks": [{"data": {"text": "ANTES DE O RIO SER RIO"}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "Quando a Baía de Guanabara era virgem de caravelas e as maiores frequentadoras de suas águas eram as baleias, os índígenas circulavam à vontade por entre ilhas, enseadas e a floresta tropical que a margeava, vivia-se a abundância das ostras. Chamadas pelos povos originários de \"leri\", \"leripe\", \"seripe\" e \"sereripe\", dependendo da tribo, eram tão fartas que deram nome a alguns lugares na cidade como o Morro do Leripe, (Morro da Viúva) e a Ilha de Sereripe (Ilha do Governador). "}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "Coletar estes moluscos era coisa de mulher! Fossem livres ou prisioneiras das guerras entre tribos, cabia a elas, exímias nadadoras, a tarefa de mergulhar atrás dos peixes flechados, escalar rochas e se meter em manguezais atrás das ostras. Habilidosas, bastava um corte na raiz e colhiam cachos inteiros. A concha era aproveitada como ferramenta para descascar a mandioca em seu caminho para virar farinha. "}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "PÉROLAS E CAL (ou… A DAR COM O PÉ)"}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "Quando os brancos chegaram aqui, ficaram impressionados. Era tanta ostra consumida pelos nativos que os seus rastros estavam por toda parte, em especial, nas areias das praias do recém-nascido Rio de Janeiro. Pérolas eram vistas jogadas pelos caminhos banhados pelo mar. Há quem diga, inclusive, que a origem da palavra “garimpo” é uma derivação da palavra “aripar”. “Aripeiro” era o nome dado a quem ficava por ali, recolhendo pérolas caídas de ostras apodrecidas. "}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "Logo os portugueses viram nas conchas vazias uma fonte de cal para as construções de uma cidade em expansão. E assim o pó alvo das cascas das ostras passou a entrar na argamassa, alvenaria e pintura de tantas construções da administração de Portugal em terras cariocas como fortes e paços.  "}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "À VENDA NAS MELHORES CASAS DO RAMO"}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "O Rio de Janeiro cresce com a chegada da Corte portuguesa em 1808 e a partir daí as ostras ganham lugar em inúmeros estabelecimentos comerciais. Ensopadas ou recheadas, cruas, fritas, em empadas ou au gratin - o fato é que comia-se esse marisco em qualquer lugar. Anúncios em jornais ao longo de todo o século XIX mencionavam pratos elaborados com ostras frescas e em conserva. Para os portugueses saudosistas, chegavam levas de ostras importadas de salmoura e em escabeche. Absolutamente incorporada ao cardápio dos cariocas, as ostras da Baía de Mauá e da Ilha de Paquetá contribuíam para abastecer a cidade."}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "POPULAR E CHIQUE"}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "Servir ostras em festas ou recepções era tido como algo de bom gosto. Por isso, evidentemente elas estavam nos banquetes do russo Maurice Haritoff que, enquanto foi um riquíssimo empresário (morreria pobre, depois de perder tudo em jogos de azar), era conhecido pelo altíssimo padrão na gastronomia e hospitalidade. "}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "No aconchego de seus palacetes e casarões, o carioca de posses tinha colheres e garfos especiais para as ostras, que exigiam um jogo de seis garfos de três dentes, o único considerado ideal para comê-las, e uma colher de ovos. À mesa, eram organizados com garfo à esquerda e a colher à direita, um ao lado do outro."}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "Em 1881, a moda era consumi-las com Sauternes, um dos mais renomados vinhos de sobremesa do mundo. Essa prática não poupava nem uma data lúgubre como o Dia dos Mortos como noticiou a Gazeta de Notícias em 1882. "}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "“E um amigo me afirma haver visto em certo restaurant pessoas que almoçavam ostras com Sauternes, trajando pesado lucto, com chapéus e grinaldas arrumados a um canto, consultando de quando em vez os relógios, para não perderem o bond…”"}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "O surgimento de confrarias dedicadas a explorar e apreciar a culinária local, como o \"Club das Ostras\", fundado em 1888, reflete a contínua popularidade desses moluscos entre os habitantes do Rio de Janeiro."}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "Com a chegada dos primeiros livros de cozinha, ganharam novas receitas: fritadas, ao molho de limão, cozidas, em frigideira e moqueca.  Nos menus mais sofisticados, as ostras eram servidas em \"croquettes\", vol-au-vent, em pastelinhos, gratinada, no espeto, com arroz, em suflê, pudim, omelete, em \"sallada\" e até em molho para o badejo, como sugerido pela chiquérrima confeitaria carioca Casa Paschoal, em um dos eventos que costumava fornecer à alta sociedade."}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "OSTRA NA RECEITA (MÉDICA)"}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "No tempo do Imperador Dom Pedro II, a ostra era indicada para o tratamento da tuberculose (junto com leite e ovos). Depois passou a ser indicada para convalescentes, debilitados e para quem sofria com problemas digestivos. "}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "“VAMOS ÀS OSTRAS?”"}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "Enquanto o século XIX avança, as ostras passam a ganhar a atenção das estrelas. "}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "Nas madrugadas, pescadores e notívagos da alta sociedade se encontravam na Praça do Mercado, hoje Praça Quinze, para degustá-las depois dos restaurantes fechados. Com o tempo, os donos das barracas passaram a servir as ostras com vinho branco, em louça fina portuguesa em cima de caixotes improvisados. O programa  transformou a área, evitada durante o dia, num ponto atrativo, talvez um dos primeiros, da noite do Rio. "}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "Coube a João do Rio comentar sobre o costume adotado pelos habitués, chamado “ir às ostras, em sua crônica “O velho mercado”, de 1904. "}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "“ Ia a madrugada em fora, e à luz das estrelas ou sob a chuva a cena se repetia. A um certo momento, os vendedores de peixe e de ostras aquartelavam com as latas enferrujadas e os cestos, acendendo cotos de vela a iluminar em derredor. Defronte sempre abria uma casa de pasto. Era a hora em que bordejavam bêbados, à espera do bote, as blusas vermelhas dos fuzileiros navais, era a hora em que apareciam os seresteiros para tomar vinho branco e comer ostras, era a hora em que, à saída dos bailes carnavalescos, paravam tipoias transbordantes de mulheres alegres e de rapazes divertidos para o fim da orgia."}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "– Vamos comer ostras no Mercado?"}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "Quem não teve esta pergunta lamentável uma vez na sua vida?”"}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "E, meio século depois, nos anos 1960, as ostras do Mercado Velho ainda foram objetos de crônicas de Fernando Sabino, de Clarice Lispector e de Carlos Drummond de Andrade. "}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "OSTRAS NO SAMBA"}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "Ao cair na boca do povo, inspira a criação de um bloco de Carnaval. Em 1913, nasce o “Ostras”, fundado por sócios do Club Fluminense. No mesmo ano, entra no cardápio do Restaurant Rio Minho, inaugurado em 1884 e em plena atividade até os dias de hoje (2024), na Rua do Ouvidor."}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "Noel Rosa foi mais além na praxe do boêmio. Na biografia do compositor, assinada por João Máximo, os companheiros de noitadas acompanhavam Noel em seu passeio diário até o Mercado Municipal, onde ostras frescas com limão eram o café da manhã do músico.O quanto que elas inspiraram o artista?"}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "CADÊ AS OSTRAS?"}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "O consumo desenfreado de ostras no Rio de Janeiro teve um preço. Nos anos 1930, os bancos da Baía de Guanabara se esgotaram e as ostras passaram a vir de outras regiões, como Sepetiba (1939), Cabo Frio (1956) e Cananéia (1960)."}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "Apesar do freio puxado no abastecimento, a tradição de consumir ostras sobreviveu em grupos mais seletos. Conta Ruy Castro que, em 1962, em vez do cachê, Vinicius de Moraes preferiu acesso ao cardápio do Au Bon Gourmet, em Copacabana, palco de tantos shows da turma da Bossa Nova. No fim da temporada, Vinicius saiu devendo ao sócio Flávio Ramos - ele próprio e seus convidados eram insaciáveis diante dos saborosos moluscos."}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "Em 1971, as ostras ganham destaque em uma das primeiras edições da coluna Rio Show, no Segundo Caderno de O Globo, como uma das atrações da Adega Pérola, onde brilham até hoje (2024)."}, "type": "paragraph"}, {"data": {"text": "As ostras são, como se vê, uma parte essencial da identidade culinária e cultural carioca. Elas conectam passado e presente, tradição e inovação. Se outrora mais acessível e popular, se por vezes mais gourmet e elitista, uma coisa é fato: o Rio fecha com a ostra. "}, "type": "paragraph"}], "version": "2.18.0"}

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