Estado do Rio: Valença, o polo lácteo mais premiado do Estado do Rio

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25 de Fevereiro de 2026 às 15:01

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Valença, o pólo lácteo de excelência do Rio de Janeiro (Rogério Resende/Arquivo pessoal)

{"time":1775682870216,"blocks":[{"type":"paragraph","data":{"text":"Por Cristiana Beltrão, fundadora do Instituto Bazzar."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Achava lindo devorar uma fatia de goiabada de lata espremida entre duas outras, de queijo prato, lá pela hora da Sessão da Tarde. Na mesma época, havia um queijo minas duro, velho e rançoso, que fazia estranhos aniversários na geladeira, e ninguém parecia ligar. Vez por outra, havia ainda um “queijo de furos”, que ninguém chamava de ‘suíço’."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Não havia luxo, qualidade ou variedade nos queijos da minha infância – ou, ainda, de qualquer amiguinho que nos frequentasse. E não faz tanto tempo assim…"}},{"type":"paragraph","data":{"text":"A lembrança me veio a caminho de Valença, região que sempre associei à cafeicultura e que, de uma hora para outra, viu surgir uma vocação inesperada."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Foi a Abolição da Escravatura que levou a mudanças profundas na região, que já foi a maior exportadora de café do mundo, no séc. XIX, mas mergulhou em franca decadência por conta da falta de mão de obra. A salvação da lavoura, literalmente, era o governo começar a incentivar a vinda de imigrantes estrangeiros."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Na passagem para o século XX, eles vinham de toda parte."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Os dinamarqueses que ali se fixaram, tentaram reproduzir, em 1920, o tradicional queijo Danbo, que deu origem ao ‘queijo prato’ afetivo da infância de todo o País. Ali, também se instalaram imigrantes italianos e portugueses, que levaram suas técnicas e desejos à região."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Fato é que essa turma encontrou em Valença um ambiente ideal. Afinal, além da ilustre participação do animal, do que um queijo é feito? Dos minerais da água, da qualidade do pasto e, também, da terra em que cresce."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Ali, por exemplo, as bactérias propiônicas, que costumam ser compradas para fazer queijos com olhaduras redondas, grandes e regulares (como nos queijos suíços), aparecem espontaneamente na pastagem de Valença graças aos afloramentos rochosos, e… surpresa(!)… se manifestam em furos redondinhos, em alguns queijos maturados."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"O tipo de “flor” que recobre os queijos, como um “mofo do bem”, também é outro grande trunfo, capaz de emprestar aromas únicos a cada peça."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Isso tudo é o tal do terroir, que aliado a um crescente investimento em mão de obra e qualidade – especialmente depois da pandemia – tem produzido resultados impressionantes."}},{"type":"Image","data":{"file":{"name":"10.webp","url":"https://django-instituto-bazzar.s3.amazonaws.com/media/10_9OeNAmX.webp"},"caption":"Caprinus do Lago, da Capril do Lago, entre os melhores queijos do Mundo. (Rogério Resende/Arquivo pessoal)","withBorder":false,"stretched":false,"withBackground":false}},{"type":"paragraph","data":{"text":"DO CAFÉ PARA A PECUÁRIA BOVINA"}},{"type":"paragraph","data":{"text":"A cidade é, hoje, a primeira bacia leiteira do Estado do Rio, tanto em volume quanto em qualidade de seus produtos lácteos."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Mais inesquecíveis, ainda, foram um queijo maturado por 6 meses, com casca bem florida (que implorei que fizesse em maior quantidade), e o requeijão de leite puro, feito à moda antiga, denso e untuoso, ali batizado como creme de queijo."}},{"type":"Image","data":{"file":{"name":"5.png","url":"https://django-instituto-bazzar.s3.amazonaws.com/media/5_KmaxI3n.png"},"caption":"Cabras felizes do Capril do Lago (Luísa Erthal/Arquivo pessoal)","withBorder":false,"stretched":false,"withBackground":false}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Um dos produtores mais premiados da cidade de Valença é Fabrício Vieira, da Capril do Lago; um dentista, filho de outro dentista, que passou a vida em área rural."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Aos 13 anos, pediu uma vaca de presente. Como era grande demais para ele, ganhou uma cabra."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Brotava ali uma paixão que daria origem, em 2023, ao sétimo melhor queijo do Mundo, no Mondial du Fromage, em Paris. Um grande orgulho termos num pódio feito APENAS de queijos europeus, um pecorino valenciano envelhecido por 12 meses."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Fabrício, a quarta geração de criadores de vacas, desde sempre viu o pai, Fabio Vieira, fazer a ordenha às 4 da manhã, almoçar às 11 horas e só depois partir para o trabalho, ritual que cumpre até hoje, aos 75 anos. Seu pai é o único de 9 filhos que manteve a tradição de tirar leite e fazer queijos."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Foi o primeiro da família a se aventurar com cabras e, apenas na pandemia, decidiu fazer disso um negócio. Então, chamou Paulo Henrique Bastos, seu atual mestre-queijeiro, e deram início a uma incessante busca pela qualidade."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Me encantei especialmente com o Mascate, de casca florida e olhaduras perfeitas (viva as bactérias propiônicas!) ou ainda em versão lavada na cachaça. Também achei fantástico o Sapucaia, queijo de massa mole coberto por um tipo de mofo branco que se desenvolve dentro da cuia da árvore da sapucaia, numa maturação de quase dois meses."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"São 300 a 400 queijos, diariamente virados, temperados, lavados, vindos de apenas 60 cabras da raça Saanem, além de dois bodes: Fred e Carlos Henrique, um verdadeiro fenômeno: o danado era capaz de emprenhar 34 cabras em dois dias. Infelizmente uma cobra o pegou, mas sua memória é sempre lembrada nas postagens da queijaria. "}},{"type":"paragraph","data":{"text":"A conexão com os animais é muito forte na Capril. Paulo Henrique, por exemplo, sente falta de cada uma das cabras que morrem ou são vendidas e, também, de cada peça que vê partir depois de ter se dedicado a elas por meses, ou mais que isso…  Cada venda é uma despedida porque as coisas são desse tamanho. E ninguém quer aumentar a produção para não perder a qualidade."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Dessas histórias, que só cabem nessa escala, é feito o queijo valenciano."}},{"type":"Image","data":{"file":{"name":"Paulo.jpeg","url":"https://django-instituto-bazzar.s3.amazonaws.com/media/Paulo.jpeg"},"caption":"Paulo Henrique Bastos, o queijeiro que fez o 7o melhor queijo do Mundo, no último mundial, em Paris, e seu novo Sapucaia, feito na cuia da árvore de sapucaia. (Luísa Erthal/Arquivo pessoal)","withBorder":false,"stretched":false,"withBackground":false}},{"type":"paragraph","data":{"text":"O SELO ARTE TRAZ A PERMISSÃO DE VENDA PARA TODO O PAÍS"}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Toda essa poesia merece estar espalhada pelas mesas de todo o Brasil. A conquista do Selo Arte garante que a Capril do Lago, entre outros excelentes produtores de Valença, tenham a oportunidade de vender para além dos limites da cidade, o que facilita tremendamente a planilha orçamentária das queijarias. "}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Afinal apenas na semana em que fiz minha visita, quatro queijarias tiveram de fechar as portas porque o mercado local não dá conta de remunerar o investimento em processos caros ou de escoar toda a produção."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"A Rota do Queijo foi uma solução excelente e criativa, levando cerca de 80 visitantes a cada rodada, mas ainda não é suficiente. "}},{"type":"paragraph","data":{"text":"A luz no fim do túnel vem a partir do esforço conjunto de um grupo de pessoas que tem tudo para transformar a região na nova Canastra:"}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Rafael de Souza Pereira, extensionista da Emater-RJ, que me deu riquíssimas aulas sobre a história, formação e evolução da região; Fábio Vicente, médico veterinário do Serviço de Inspeção Municipal de Produtos de Origem Animal (SIMPOA) de Valença; e Bruna Boaretto Durço, médica veterinária do Programa de Apoio ao Produtor Rural do Centro Universitário de Valença, ajudam a orientar e formar novos produtores e os orientam na obtenção do Selo Arte para que os produtos cheguem até nós."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Tive a sorte de acompanhá-los numa visita a Breno Furtado, da Porco Alado (Nova Friburgo), que contou sobre sua experiência e tirou dúvidas como o único produtor fluminense a conseguir o selo em 2024. "}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Já rodei o mundo todo, entrevistei muitos produtores e provei mais queijos do que meus quadris gostariam. Posso afirmar sem medo: Valença não deve nada a ninguém."}}],"version":"2.18.0"}

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