Rio de Janeiro: canja, identidade carioca

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Territórios

Publicado em

11 de Maio de 2026 às 10:33

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{"time":1779386286123,"blocks":[{"type":"paragraph","data":{"text":"Canja. Caldo, arroz, galinha. Prato simples, mas com temperos históricos, uma das poucas sopas que o Brasil manteve em seu cardápio, consumido avidamente, por ricos ou pobres, ao longo dos dois últimos séculos, apesar de todo o calor tropical. "}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Era hábito colonial. Estava no Brasil no tempo dos vice-reis, direto das canjas e caldos de galinha de portugueses, que incorporaram a expressão 'kanji', do tamil கஞ்சி, comum nas colônias lusitanas do Ceilão e Calicute."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"No Brasil, era prato de preparo natural, já que as galinhas eram abundantes nos quintais e nas chácaras do Rio - e o arroz, importado do Sul e de São Paulo, era descascado no primeiro engenho carioca para este fim, no futuro bairro da Piedade."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Se a canja era prato familiar, tornou-se também uma rotina das casas de pasto, desde as primeiras horas do dia, com direito a uma nota curiosa: o caldo de galinha e a canja de arroz eram tratados como pratos diferentes, como acusava o anúncio de 1829, o primeiro em um jornal carioca:"}},{"type":"paragraph","data":{"text":"“Antonio Francioni, actual proprietário da casa de pasto e hospedaria denominada hotel do norte, sita na rua direita n. 17, tem a honra de participar ao respeitável Público, que na sua dita casa de pasto se acha desde as 7 horas da manhã, até às 10 da noute, caffé, chá com leite, caldo de galinha e canja de arroz.”"}},{"type":"paragraph","data":{"text":"E era servido até o último cliente, como em uma casa de pasto da Rua das Violas, que oferecia \"caldo de gallinha e canja até meia-noite\".É desse fim de noite, aliás, em que os músicos da madrugada cantavam para a frequência dos bares em troca de um prato da sopa, dando origem à expressão \"dar uma canja\"."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Muitas dessas casas ficavam nas cercanias dos teatros, como o Café da Bolsa, próximo à Praça da República, e nas áreas das ruas do Senado e do Lavradio, como o Maison Moderne, o Garoto do Senado e o Hotel União Portugueza e, já no início do século XX, o Tim-Tim."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Mas a receita da canja monumental, a de galinha, pedaçuda em carnes e legumes, chegou mesmo com a família real, já em sua forma atual e já com os requintes do paladar da corte, que cortava a gordura com folhas de hortelã ou espremidas de limão - e foi consagrada no Império por D. Pedro II, que a consumia vorazmente da manhã à noite, inclusive nos intervalos de eventos ou solenidades públicas. "}},{"type":"paragraph","data":{"text":"É também nessa época que a boa canja era anunciada no Natal e no Carnaval, tornando-se uma iguaria que, ao lado de dobradinhas, sarrabulhos e cabidelas, integrou os cardápios das primeiras petisqueiras, rudimentos do moderno botequim carioca."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Também nessa época a canja esteve na mesa do carnaval da alta sociedade. Se hoje a feijoada é o prato-símbolo dos folguedos, antes o elegante era frequentar os \"banhos de canja\", em que os temperos e as gorduras do prato aplacavam a intensidade das bebedeiras dos tempos do Império e toda a Primeira República."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"A canja nunca deixou as suas origens mais populares, as madrugadas do Centro. De lá migrou para os bares do Catete, de Laranjeiras, tornando-se clássico em casas como o Mocambo e o Cabaça Grande, além do Mosteiro, do Café Lamas e da Leiteria Brasil, já nos anos 1950, quando chegou a Copacabana, coagindo sempre com a música sem ensaio, aquecendo a bossa nova, como registrou Ruy Castro, em seu \"Chega de saudade\":"}},{"type":"paragraph","data":{"text":"\"Candinho frequentava o bar Alcazar, na av. Atlântica, famoso pela canja de galinha na madrugada e pelas canjas de violão que garotos como ele e Carlinhos Lyra costumavam dar\"."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"                                                                                                                                    texto de Pedro Mello e Souza"}}],"version":"2.18.0"}

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